quinta-feira, 18 de maio de 2017

Missas em Latim?!









Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II, torna-se muito difícil compreender a pretensão de querer voltar atrás, reintroduzindo aquilo que a Igreja, em Concílio, desaconselhou ou seja, celebrar a Missa em Latim.
O Papa Paulo VI deu o exemplo, celebrando a primeira Missa em italiano e, cinquenta anos depois, no mesmo local (Paróquia romana de Todos os Santos), o Papa Francisco reforçou a importância desta decisão histórica, aliás experimentada com grandes frutos na Igreja pós-conciliar.

Em 12 e 13 de Maio último (ano de 2017) a multidão que recebeu o Papa Francisco, em Fátima, com ele pode participar melhor na celebração do Mistério eucarístico porque, recorrendo unicamente ao Português, o Pastor universal deixou bem clara a importância da grande mudança realizada na liturgia da Igreja.  Seguir o exemplo do Senhor Jesus, que falava a língua dos seus conterrâneos, voltar às origens ou ao exemplo das primeiras comunidades cristãs, respeitar e pôr em prática aquilo que a Igreja, na fidelidade ao Espírito decide e recomenda, é a melhor forma de não nos enganarmos, defendermos o "bem dos fiéis" e promovermos a participação ativa do Povo de Deus.

Apesar das diferentes sensibilidades ou gostos pessoais, na pastoral da Igreja não é aconselhável a introdução de ritos ou práticas que o povo não pode entender. Porque de linguagem se trata, convém não esquecer a recomendação do Apóstolo S. Paulo no sentido de que, quando alguém fala na assembleia e não se entende, esse irmão deve calar-se. (cf. 1 Cor. 14,27-28)

A Liturgia ou "ação do povo", conforme significado da própria palavra, requer a ultrapassagem tradicional do "ouvir missa", com o promover do entendimento do que se faz e a participação ativa de toda a assembleia.Como se pode alimentar a fé que vem pelo ouvido se a celebração da mesma se torna uma "coisa distante"?! E como poderá tornar-se próxima se o latim não é a nossa linguagem (aliás, "língua morta") e até mesmo os novos Padres já não o aprendem?! Se não o aprendem, como poderão pronunciá-lo corretamente?!


Pela atualidade deste assunto, aqui transcrevo a Carta do Cardeal-Patriarca de Lisboa, aos Presbíteros do Patriarcado de Lisboa, em setembro de 2007.




 

Caros Padres,


             1. Dirijo-me a vós num momento da vida da Igreja, em que se exige particular discernimento pastoral: a publicação por Sua Santidade o Papa Bento XVI da Carta Apostólica, dada sob a forma de "Motu Proprio", "Summorum Pontificum Cura". O "Motu Proprio" regula o uso, na Liturgia, do "Missale Romanum", na sua última edição de 1962, promulgada pelo Papa João XXIII, como forma extraordinária de celebração da Liturgia católica segundo o Rito Romano.

Ao apresentar este "Motu Proprio", o Santo Padre escreveu uma Carta aos Bispos de todo o mundo, cujo texto é indispensável para a interpretação e aplicação pastoral do referido "Motu Proprio".

 
Ambos os textos serão publicados no "Vida Católica".


O Santo Padre reconhece que a notícia da publicação destas Normas provocou duas reacções: uma entusiasta aceitação e uma férrea oposição. Espero que, entre nós, nenhuma destas atitudes extremas prevaleça. Considero que as pessoas que desejam celebrar a Liturgia do Missal de 1962 são, entre nós, uma minoria, embora permeáveis ao que se passa noutras Igrejas. É mais plausível a reacção daqueles que sentem desgosto, pensando que se pôs em questão o Concílio Vaticano II e o seu "ex libris" que é a Reforma Litúrgica. De facto, muitos de nós vivemos com grande entusiasmo a Reforma Litúrgica e o espírito de "aggiornamento" proposto pelo Concílio, e isso modelou a nossa forma de ser cristão e imprimiu o rosto às comunidades cristãs, que aprenderam a viver a Liturgia, não apenas como manifestação da fé pessoal, mas como expressão viva de um Povo que se reconhece como comunidade quando celebra a Sagrada Liturgia.
Em espírito de comunhão com o Santo Padre, escutando-o e obedecendo-lhe, queremos pôr pastoralmente em prática, com o discernimento que a sua aplicação a uma situação concreta exige, a sua orientação para toda a Igreja, percebendo as motivações que o moveram e os objectivos que pretende alcançar.


Apesar de o "Motu Proprio" dar uma grande autonomia de decisão aos Párocos e, em certos casos, a todos os Sacerdotes, o Bispo não deixa de ser, como o Santo Padre reconhece, citando a "Sacrossanctum Concilium", nº 22, o moderador da Liturgia na própria Diocese: "O governo da Liturgia depende unicamente da autoridade da Igreja: pertence à Sé Apostólica e, nas regras do direito, ao Bispo" (S.C., nº22). Na construção da unidade da Igreja diocesana, a aplicação deste "Motu Proprio", no respeito pela autoridade do Santo Padre, expressamente manifestada, será definida pelo Bispo diocesano, com a colaboração do Departamento de Liturgia da Diocese.


 


            Os motivos e objectivos do Santo Padre


            2. Antes de mais, o bem dos fiéis, daqueles que desejam a celebração segundo o Missal de 1962, porque procuram aí a dimensão sagrada do mistério da Eucaristia, que também podem encontrar na celebração segundo o Missal de Paulo VI, que devem em qualquer hipótese aceitar, porque continua a ser, para toda a Igreja, a forma normal de celebrar a Liturgia. O Santo Padre afirma mesmo que, vencidos os exageros de uma criatividade litúrgica mal concebida, é ocasião de imprimir nesta forma normal de celebrar a Missa toda a sua dimensão sagrada. Diz Bento XVI na Carta aos Bispos: "Na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo…" celebrando "com grande reverência, em conformidade com as rubricas; isto torna visível a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste Missal".
 
ü  O "bem dos fiéis" é, pois, o único motivo que pode levar os Párocos a usar o Missal de 1962, pelo que um Pároco não pode impor à Paróquia o Missal de 1962 apenas motivado pela sua perspectiva pessoal.

 
ü  O "bem dos fiéis" supõe discernimento: quantos são os fiéis, quais os motivos que os levam a pedir essa Liturgia; que formação cristã e litúrgica possuem. De facto o Santo Padre afirma: "O uso do Missal antigo pressupõe um certo grau de formação litúrgica e o conhecimento da língua latina; e quer uma quer outro não é muito frequente encontrá-los".
Que ninguém se precipite nem facilite, na certeza de que encontraremos de modo justo, uma resposta para os fiéis que o pedirem, obedecendo aos critérios enunciados pelo Santo Padre, que não contemplam motivos como o simples gosto pelo antigo, o ser diferente, ou a forma de reagir a imperfeições na forma actual de celebrar a Liturgia.
 
3. Um outro objectivo do Santo Padre é salvaguardar a unidade da Igreja. "Trata-se de chegar a uma reconciliação interna no seio da Igreja" (Bento XVI, Carta aos Episcopados)

Na história da Igreja, mais do que uma vez, as grandes reformas originaram divisões com grupos de cristãos que não as aceitaram. Foi o caso dos "velhos católicos", a seguir ao Concílio Vaticano I, e o do cisma de Mons. Lefebvre, a seguir ao Concílio Vaticano II. Bento XVI confessa que a primeira abertura ao uso do Missal de 1962, feita por João Paulo II no "Motu Proprio" Ecclesia Dei, foi motivada pela crise lefebriana e dirigia-se à Fraternidade S. Pio X. O seu "Motu Proprio" dirige-se não apenas aos seguidores de Mons. Lefebvre, mas a outros cristãos, mesmo jovens que, pensa o Santo Padre, se sentem atraídos por essa Liturgia. O horizonte de análise do Santo Padre é a Igreja toda. 
Mas esta preocupação por salvaguardar a unidade da Igreja tem, nos dois documentos do Papa, outras concretizações a que devemos dar grande relevo pastoral: antes de mais, o Missal de Paulo VI é a forma normal, para toda a Igreja, de celebrar a Liturgia. Diz o Santo Padre que, "obviamente, para viver em plena comunhão, também os sacerdotes das Comunidades aderentes ao uso antigo não podem, em linha de princípio, excluir a celebração segundo os novos livros. De facto, não seria coerente com o reconhecimento do valor e da santidade do novo rito a exclusão total do mesmo"; por outro lado, quando o Pároco acha que deve acolher o desejo de um grupo de fiéis da sua Paróquia de celebrar pelo Missal de 1962, "tenha em conta que o bem destes fiéis seja harmonicamente coordenado com o bem pastoral de toda a Paróquia, sob orientação do Bispo nos termos do c. 392, evitando divisões e promovendo a unidade de toda a Igreja" (art.º 5 §1 do Motu Proprio). Isto quer dizer que tem de se avaliar o significado dessa abertura na harmonia de toda a comunidade.



 
Papel dos Sacerdotes na aplicação destas Normas


4. Porque é o sacerdote quem preside à Eucaristia e aos Sacramentos, o bom discernimento pastoral dos sacerdotes é muito importante para uma aplicação positiva e equilibrada destas Normas.


Como já ficou dito, o sacerdote não deve pôr o acento no seu possível gosto pessoal pela Liturgia anterior à Reforma Litúrgica, mas no bem dos fiéis e de toda a comunidade a que preside. O seu gosto pessoal só poderá ter lugar na missa privada, "sine populo" (art.º 2º). Estas celebrações não podem ser aquelas que são anunciadas ao Povo de Deus, como programa normal da Paróquia. Essas "missas privadas" não devem ser anunciadas. A possibilidade de outros fiéis assistirem a elas, como está previsto no art.º 4º do "Motu Proprio", não pode entender-se como divulgação pública das mesmas.
Quanto às celebrações públicas para os fiéis que as pedirem, dada a não premência do fenómeno entre nós, que ninguém se precipite a conceder essas celebrações, sem um discernimento prévio, de preferência feito em presbitério e em diálogo com o Bispo.
Estejam os Párocos particularmente atentos para se certificarem que os sacerdotes que se apresentam para celebrar segundo o rito antigo, mesmo na missa "sine populo", são idóneos e não impedidos pelo Direito (cf. Art.º 5º §4).

 
5. Os Párocos devem cuidar, particularmente, da qualidade e profundidade litúrgica dessas celebrações. O rito antigo, já muito distante da prática da Igreja, se não é celebrado com dignidade litúrgica, pode transformar-se em elemento desagregador do crescimento das comunidades. Neste aspecto tenham-se em conta, sobretudo os seguintes pontos:

 
5.1. O uso da língua latina. É claro na Carta do Santo Padre aos Bispos que o seu uso supõe o conhecimento da língua latina. Infelizmente muitos sacerdotes da nossa Diocese já não sabem o latim. Esses sacerdotes devem considerar-se não idóneos para presidir à Missa segundo o Missal de 1962. Se as circunstâncias pastorais o aconselharem, devem procurar-se sacerdotes que o possam fazer dignamente.

 
5.2. A música. Os textos do Missal de 1962 estão musicados em gregoriano. A possibilidade de os cantar, com o mínimo de qualidade, deve ser condição para permitir missas comunitárias nesse rito.


 
5.3. O vernáculo. As leituras em português supõem traduções aprovadas pela Santa Sé (cf. Art.º 6º).

 
5.4. Os espaços sagrados. Os nossos templos estão orientados para a celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI. Fica proibida qualquer tentativa de alterações dos espaços, sobretudo do altar e do presbitério, por causa da possibilidade de celebrar o ritual de 1962, que aliás já previa a celebração "versus populum".

 
Princípios basilares a ter em conta
 

6. Os textos litúrgicos emanados da Reforma Litúrgica constituem a Liturgia normal da Igreja para todos. O uso de textos de antes da Reforma Litúrgica, é excepcional, motivado pelo "bem dos fiéis", a discernir e analisar ponderadamente.

7. As celebrações, segundo esse rito, devem ser durante a semana. Nos Domingos e dias festivos, celebra-se a Liturgia normal. O Santo Padre abre a hipótese, no caso dum grupo significativo de fiéis o aconselhar, de uma das celebrações paroquiais nos Domingos e dias festivos seguir o Missal de 1962. Na nossa Diocese, peço aos Párocos que, por enquanto, não permitam essas celebrações dominicais, antes de uma análise profunda da situação. Se chegarmos à conclusão que o "bem dos fiéis" o exige, encontraremos, em conjunto, formas de lhes garantir, ao Domingo e dias festivos, celebrações de grande qualidade segundo a Liturgia antiga.

 
8. Estejamos vigilantes para que esta abertura concedida pelo Santo Padre, tendo em conta o bem de toda a Igreja, não se transforme numa campanha em favor da Liturgia antiga. Isso seria contra a Reforma Litúrgica e todo o espírito do Concílio Vaticano II, e ignoraria o carácter extraordinário, claramente afirmado pelo Santo Padre, do uso do Missal de 1962.
 
9. Procuremos todos celebrar a Liturgia com qualidade, unção e sentido do Sagrado. Estas qualidades que aparecem a justificar os que procuram a Liturgia antiga, são aliás valores da Reforma Litúrgica, pois toda ela é expressão, em assembleia orante, da fé da Igreja.

Conclusão



10. Assino esta carta com data de 14 de Setembro, no dia em que entra em vigor a Carta Apostólica do Santo Padre "Summorum Pontificum Cura". Ela é a expressão da nossa comunhão obediente com o Santo Padre, mas também o assumir das nossas responsabilidades pastorais, como Pastor desta Igreja de Lisboa.
 
 Lisboa, 14 de Setembro de 2007, Festa da Exaltação da Santa Cruz
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

terça-feira, 11 de abril de 2017

TRÍDUO PASCAL


 
«Exorto-vos a viver intensamente estes dias, para que eles orientem decididamente a vida de cada um para a adesão generosa e convicta a Cristo, morto e ressuscitado por nós» (Bento XVI).

 

No final da quaresma, vivemos a Semana Santa, ocasião para vivenciar os últimos acontecimentos que antecedem a Paixão e morte do Senhor Jesus, envolvidos da experiência dolorosa e dramática, até ao ponto de, humanamente, se poder perguntar se foi abandonado pelo próprio Deus. Um dos que estava com Ele à mesa, na maior intimidade, o havia de entregar (Judas Iscariotes) e Pedro, pouco tempo depois, "antes do galo cantar", o negaria três vezes.
A celebração do Tríduo Pascal é o centro do ciclo da Páscoa e também de toda a Liturgia e da vida da Igreja. 

 

O tríduo tem início com a Quinta-feira santa onde celebramos a Instituição da Eucaristia, o dom do Sacerdócio e recebemos o Mandamento Novo: "Amai-Vos uns aos outros como Eu vos amei". Na fração do pão, o próprio Jesus faz-se alimento para o homem pecador que não desiste de se querer levantar para continuar a caminhar na presença de Deus, rumo à eternidade.

 

A sexta-feira da Paixão, momento derradeiro que testemunhamos a morte de Jesus na cruz, convida-nos a acompanhar os passos do sofrimento de Cristo pela nossa Salvação. “Nós temos a possibilidade de tomar, neste dia, a decisão mais importante da vida, aquela que nos abre de par em par as portas da eternidade: acreditar! Acreditar que ‘Jesus morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação’ (Rom 4, 25).

 

No Sábado Santo, a Igreja inteira permanece à espera junto do túmulo do Messias, sacrificado na Cruz. Espera e reza, ouvindo novamente as Escrituras que falam da história da salvação. Depois do pôr do sol, somos convidados a entrar em Vigília de Oração, fortemente marcada pela escuta demorada da Palavra de Deus, terminando com a celebração Eucarística, na qual renovamos as nossas promessas batismais e professamos solenemente a fé da Igreja.

 

A experiência da Páscoa, ponto central da nossa fé, mostra a realidade do plano de Salvação: Deus enviou o Seu Filho amado ao mundo não para condenar o mundo mas para que o mundo seja salvo. Pelo mistério pascal, Jesus mostra-nos o caminho trilhado pelo amor no sofrimento que frutifica abundantemente e provoca a própria Ressurreição.


Vivamos intensamente o Tríduo Pascal para que o Domingo de Páscoa seja verdadeiramente o Dia de Cristo Ressuscitado, desejando que esse dia nunca chegue ao seu termo.


"EIS O DIA QUE FEZ O SENHOR. NELE EXULTEMOS E NOS ALEGREMOS"!!!


 

 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

MENSAGEM DA PÁSCOA 2017 - D. JOÃO MARCOS, Bispo de Beja

 
Sem Páscoa não há futuro
 
 
Meus queridos diocesanos e amigos:
1 - Anunciar a Páscoa neste nosso contexto, convidar pessoas para celebrarem a Morte e a Ressurreição de Jesus de modo a poderem saciar-se nas fontes da vida e da salvação é quase como tentar vender roupas de verão no pino do inverno ou apregoar chapéus-de-chuva no deserto, onde não chove. Atualmente, a maior parte das pessoas sente-se bem no Egito, como se estivesse na sua pátria. Não quer ouvir falar de ressurreição, e de morte, ainda menos. Sair do Egito? Isso era antigamente. Porque deixou de ser visto como casa da escravidão, o Egito está agora muito mais sedutor que a melhor idealização da Terra Prometida, e o caminho faz-se agora em sentido inverso. Basta ver as multidões que deixam para trás Jerusalém e o Sinai e trocam Jesus e Moisés pelas idolatrias de sempre e pelas superstições de novo reabilitadas.
Os tempos são outros. O faraó é o mesmo de sempre e não mudaram os seus desígnios sinistros, mas agora usa métodos mais sofisticados e eficazes: trocou o rigor do chicote pelo conforto, a fome e o racionamento pela abundância de bens materiais e disfarça a mesma dura servidão e manipulação dos escravos oferecendo-lhes, de bandeja, as mais amplas liberdades individuais. Em nome dos superlativos direitos do indivíduo, o faraó já não mata só os meninos mas nega o direito à vida também às meninas. E, para garantir o bem-estar do momento presente que engorda esta geração para a matança, incentiva-lhe o egoísmo, a gula, a luxúria e a esterilidade, e assim destrói a família e inviabiliza o futuro. Nunca dantes se viu no mundo algo comparável a este Egito deslumbrante, a esta terra da abundância e de todas as liberdades, a este magnífico Eldorado. Assim, quem se disporia a sair do Egito para se ver livre de um faraó tão bom? Não vale mais um pássaro na mão que dois a voar? Alguém trocaria o seu conforto e as suas seguranças por uma deriva cheia de perigos num deserto onde não há nada, em busca de uma hipotética terra prometida? Apenas aqueles que, como Moisés, têm sabedoria para discernir o presente e vislumbrar o futuro, como se vissem o invisível (Cf. Heb.11,27). De facto, estas liberalidades faraónicas são um engodo e sumamente precárias, mas as pessoas, anestesiadas, não dão por isso. Não reparam nos muitos sinais de desagregação do tecido social, nem avaliam os custos criminosos e as consequências desastrosas desta embriaguez coletiva. Para que haja futuro precisamos da Páscoa.
2 - Nesta sociedade, parece que Deus sobra. Pior: os falsos profetas demonstram facilmente aos incautos, com duas mentiras, que Deus é nosso inimigo e nos rouba o espaço de que precisamos para sermos nós próprios. Deus quer? Não! O homem quer, o homem sonha, a obra nasce e, pelo homem, cresce e é concluída. Do homem que a sonha ao que dela frui, do homem para o homem, em circuito fechado, em curto-circuito. E o homem agradece a si mesmo e ao seu trabalho, e a si próprio se felicita. Quem conseguirá fazer-lhe ver que precisa de um Redentor, se a superficialidade e a soberba o cegam e impedem de se conhecer a si mesmo? Voltado completamente para fora, para dominar e transformar o mundo, o homem ocidental vendeu a alma ao diabo por um prato de lentilhas. Perdeu a interioridade, ficou
completamente analfabeto no que respeita à vida espiritual e vê-se enredado nas superstições mais grosseiras e nas mais pesadas idolatrias.
Quem abrirá os olhos a esta geração para que se dê conta da destruição provocada pelo materialismo e pela estupidificação crescente de tanta gente que, tendo abandonado a fé cristã parece contentar-se com uma vida sem dignidade e sem esperança? Quem escutará a voz persistente do seu coração inquieto, criado para Deus e sempre insatisfeito enquanto não descansa n’Ele? Quem abrirá o caminho do Êxodo a esta geração surda, cega e paralítica que apodrece miseravelmente neste sofisticado Egito disfarçado de terra prometida?
3 - Aquele que é a luz do mundo, o Senhor da vida e da morte, vem ao nosso encontro, vem ao teu encontro nesta Páscoa, querido irmão ou irmã, e convida-te para a verdadeira liberdade e para o banquete da sabedoria, para o banquete da Nova Aliança: todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas (Is. 55,1); Vinde comer do meu pão, bebei do vinho que preparei para vós (cf. Prov. 9,5).
Como vosso pastor que sou, traduzo e concretizo para vós este convite: Vinde celebrar a Páscoa! Vinde aclamar Cristo nosso Rei e Senhor na procissão do domingo de Ramos! Vinde, na quinta-feira santa, inaugurar o Tríduo Pascal e viver intensamente a entrega de Jesus por nós e aprender a praticar a verdadeira caridade fraterna em profunda humildade, servindo os irmãos com os mesmos sentimentos de Jesus. Vinde, na sexta-feira santa, contemplar a Paixão do Senhor na qual resplandece o amor imenso de Deus para connosco e também as consequências do pecado do mundo, dos nossos pecados. Vinde adorar o Senhor crucificado e aprender a sabedoria da Cruz. Na noite de Páscoa, na solene Vigília Pascal, a mais importante de todas as celebrações, vinde passar com Cristo da morte para a Vida; vinde refontalizar a vossa vida cristã renovando as promessas do Batismo e celebrando o memorial da Páscoa do Senhor, a Eucaristia, na qual recebemos, como penhor da Vida Eterna, o corpo do Senhor Jesus Ressuscitado!
4 – Não digas que não tens tempo. Dá importância ao que é importante. Sê inteligente, não inventes desculpas, sê bom para ti mesmo! Vem celebrar a Páscoa connosco e poderás dizer com os discípulos de Emaús: o Senhor ressuscitou verdadeiramente (Luc. 24,34)! E poderás testemunhar, com Maria Madalena: vi o Senhor (Jo.20,18)!
Queridos irmãos e amigos: sem Páscoa não há vida, não há futuro! Manifestemos a alegria incomparável de sermos filhos de Deus regenerados por Cristo no seio da Igreja, de sermos membros do Corpo de Cristo, reis e sacerdotes! Rezemos uns pelos outros para que, nestas celebrações, recebamos abundantemente o Espírito Santo para anunciarmos corajosamente a vitória de Cristo sobre a morte. Ele vos conceda, nestas festas, a sua paz e a sua alegria!
 
 
 
 
 
+ J. Marcos