sábado, 13 de abril de 2019

"Eis o Homem"

“Sermão do Encontro”
Eis O HOMEM”! Foi com estas palavras que Pilatos, quando trouxe Jesus para o Pátio do Pretório, O mostrou à multidão. Vinha coroado de espinhos, tinha sido flagelado, estava revestido com um manto escarlate, que os soldados lhe tinham colocado aos ombros para o escarnecer. Pilatos, que o tinha interrogado e nenhum crime tinha encontrado n’Ele, pensava que, mostrando-o assim, flagelado, coroado de espinhos e desprezado, a multidão se compadecesse. Pelo contrário, aquela multidão, manipulada pelos Corifeus da perseguição a Jesus, gritou com força: “Crucifica-OCrucifica-O!”
Pilatos era quem mandava em Jerusalém mas era cobarde. Veio dizer que não encontrava crime nenhum naquele homem mas cedeu à pressão daquela multidão furiosa. Talvez muitos daqueles o tivessem aclamado quando Jesus fazia milagres, quando os saciou com os pães, quando pregava, quando estava no meio deles. Hoje estava tudo ao contrário, pediram a Sua crucifixão. Esse Jesus, quem era Ele? Jesus de Nazaré: Aquele que veio para salvar, não para condenar, para perdoar, para absolver, para curar os doentes, para salvar os oprimidos, aquele que trouxe ao mundo a nova lei do amor, de perdão, de misericórdia. Tantas vezes tinha sido aclamado pelos que gostavam de O ouvir, porque nunca ninguém tinha falado como Ele. Ele falava palavras de vida eterna, palavras de amor e de compreensão. E hoje? Hoje todos queriam condená-lo e até os seus próprios discípulos tinham desaparecido. Ele, com todo o Seu poder, permanecia calado, nada dizia, sofria tudo em silêncio. Mas, antes de O prenderem, Jesus mostrou que era Filho de Deus, que tinha poder. Perguntou-lhes: “A quem buscais” Eles disseram; “A Jesus Nazareno”. “Sou Eu”. Todos caíram por terra.
Jesus mostrou quem Ele era. Podia ter-Se libertado daqueles que vinham para o prender, induzidos por Judas, o traidor, que era um dos Seus discípulos mas deixou-se prender. Em muitas outras ocasiões O quiseram prender mas Jesus nunca deixou porque, dizia Ele,”ainda não chegou a Minha Hora”. Mas, naquela noite, já tinha chegado a “Sua Hora”, a Hora de se entregar nas mãos do Pai para redimir a humanidade, para se entregar voluntariamente, como Ele dissera: “A vida, a Mim, ninguém a tira, sou Eu que a dou voluntariamente”. Foi Ele que se entregou voluntariamente nas mãos de Pilatos, nas mãos dos carrascos e que aceitou a condenação ao suplício da cruz. Por isso, carregou a Sua cruz às costas, do Pretório até ao Calvário.
Foi o que nós hoje, nesta tarde, meus irmãos, estivemos aqui a evocar: a condenação de Jesus por Pilatos e a sua caminhada dolorosa para o Calvário. O inocente, carrega na Sua cruz todos os pecados da humanidade, os meus pecados, os teus pecados. Vai silenciosamente a caminho do calvário. Aí, encontra algumas pessoas que se compadecem d’Ele, que até o ajudam: Simão de Cirene, que o ajudou a levar a cruz; Verónica, a mulher corajosa, que saiu do meio da multidão e veio limpar aquele rosto chagado; as mulheres de Jerusalém que choravam e a quem Jesus disse: “não choreis por mim, chorai antes por vós e por vossos filhos”.
Ó meus irmãos: Não se trata apenas de nos compadecermos, é preciso reconhecer as nossas faltas, não chorar por aquele que é inocente mas chorar por nós, isto é, transformarmos a nossa vida e pormo-nos também a caminho como Jesus o fez, por nosso amor. E nós hoje encenamos aqui, nestas ruas, fizemos uma evocação, estamos a fazê-la, como foi aquela caminhada pelas ruas sinuosas daquela cidade de Jerusalém no tempo de Jesus, ou hoje em Beja. Mas não se trata apenas de uma invocação. É também uma realidade. Essa cruz que Jesus leva às costas é simbólica mas há uma realidade que ela representa: os pecados, as maldades, as injúrias, as injustiças, as infidelidades, os sofrimentos de toda a humanidade. Não é só representação, é realidade. Cada um de nós, se quiser ser sincero, pode interrogar-se nesta tarde e pensar: qual é o lugar que eu ocupo nesta caminhada para o Calvário, com quem é que eu me identifico? Com aqueles que condenaram Jesus, com os que o desprezaram, aqueles que o desprezaram, o maltrataram ou com aqueles que o ajudaram? E nós não estávamos lá em Jerusalém. Mas Jesus não é um morto. Jesus está vivo, Ressuscitou. Por isso eu digo: Não estamos apenas a invocar o que aconteceu em Jerusalém, Estamos a viver uma realidade, porque este Jesus que morreu no calvário também Ressuscitou e disse: “O que fizerdes aos outros é a Mim que o fazeis e tende a certeza que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”.
Verónica limpou o rosto de Jesus e hoje também existem muitas Verónicas que limpam o rosto chagado dos doentes, das crianças, dos deficientes, dos abandonados, dos moribundos e dos caídos à beira da estrada. É Jesus que está ali. Simão ajudou Jesus a levar a cruz e hoje também existem Cireneus que ajudam seus irmãos a sair das dificuldades em que se encontram, que colaboram, que ajudam, que estando em frente da televisão e ouvindo as notícias, não ficam apenas como as mulheres de Jerusalém a lamentar-se e a dizer: “Que grande desgraça aconteceu!” É verdade! Que faço eu para ajudar a mitigar essa desgraça que aconteceu? Em Moçambique, na Síria, em Portugal e em tantos outros sítios, na cidade de Beja e em muitas outras localidades, há gente que precisa, muitos Cristos que sofrem. Como diz S. Paulo, a Paixão de Cristo ainda não acabou. A Paixão de Cristo continua. Onde houver um homem, uma mulher, um jovem, uma criança que sofre aí continua a Paixão de Cristo. E quem vai ajudar, vai em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
É isto, irmãos que nós, esta tarde, ao invocarmos Jerusalém, estamos também a tentar viver na nossa vida, e a interrogarmo-nos na Paixão de Cristo, nesta Paixão actual de Cristo, isto é, nos sofrimentos da humanidade. Aqui, à minha volta, qual é a minha atitude, qual é o meu lugar? De mera contemplação, passiva, sem nada fazer, de ajuda ou de alguém que está bem perto de Jesus como estava Sua Mãe, Maria, Aquela que o viu a caminhar para o Calvário e que não o abandonou como os seus discípulos, que também o abandonaram? Estava lá, junto à cruz, ali, a mulher forte, de pé, com a alma sofredora, junto de Seu Filho, com a alma trespassada e ouviu aquelas palavras maravilhosas de Jesus: “Mulher, eis aí o teu filho, eu morro mas tu tens muitos filhos, protege-os, ampara-os, socorre-os que eles necessitam do teu auxílio, da tua protecção”. Voltando-se para João, disse-lhe: “Ela é a tua mãe. A nossa Mãe, a Mãe de Jesus que está sempre ao nosso lado”.
A nossa atitude, irmãos, neste drama da Paixão do Senhor Jesus há-de ser ao lado de Maria. Com ela, por ela, pedindo que nos dê este coração misericordioso e bom, que nos dê olhos capazes de ver o que se passa à nossa volta, nos dê um coração capaz de se compadecer, nos dê generosidade e mãos capazes de limpar as chagas da humanidade, dos rostos que estão à nossa volta e nos fazer caminhar com esta esperança de que, vivendo na terra a Paixão do Senhor nós poderemos também participar um dia na glória da Sua Ressurreição.
Vamos continuar a nossa Procissão, vamos continuá-la com este sentimento, pedindo ao Senhor: “Senhor ajuda-me a eu inserir-me também na paixão, a eu aceitar os sofrimentos que batem à minha porta, a uni-los aos teus, a tornar-me contigo, por intermédio de Maria, alguém que ajuda a que este mundo seja melhor, nos levante o espírito para Deus e afaste de nós as trevas do pecado e do mal”. Ámen!

Procissão dos Passos na Cidade de Beja, 07/04/2019
D. José Alves, Arcebispo Emérito de Évora

terça-feira, 19 de março de 2019

Falecimento de D. Maurílio de Gouveia, Arcebispo Emérito de Évora

D. Maurílio  de Gouveia, Bispo Emérito da Arquidiocese de Évora,“RUMO AO CÉU”



 Diocese do Funchal, Madeira, anunciou o falecimento de D. Maurílio de Gouveia, Arcebispo Emérito de Évora, no dia 19 de Março de 2019, com 86 anos de idade. Em nota divulgada pelos serviços Diocesanos do Funchal, a Diocese manifestou “o seu pesar pelo falecimento do arcebispo emérito de Évora, D. Maurílio de Gouveia”.
O antigo arcebispo morreu, na sequência de doença prolongada, no Eremitério de Maria Serena, em Gaula (Concelho de Santa Cruz), Madeira, onde residia.
Segundo a Agência Ecclesia, as celebrações fúnebres iniciar-se-ão na próxima quinta-feira, de manhã, a partir das 07h30, na Sé do Funchal, com a recitação Ofício de Defuntos e a celebração da Missa de Corpo Presente, às 08h30, prevendo-se para as 11h00, a partido dos seus restos mortais, do aeroporto da Madeira para a Sé Metropolitana de Évora, onde serão celebradas as exéquias, sendo o seu corpo sepultado numa capela lateral da Igreja do Espírito Santo.

Alguns Dados Biográficos

D. Maurílio de Gouveia, nasceu a 5 de agosto de 1932 em Santa Luzia, no Funchal, tendo frequentado o Seminário do Funchal e, nessa Diocese foi ordenado Sacerdote (4 de junho de 1955).
Aos 22 anos seguiu para Roma, para realizar a sua formação em Teologia Dogmática, na Pontifícia Universidade Gregoriana, que concluiu, seguida da pós-graduação, em Teologia Pastoral, na Pontifícia Universidade Lateranense.
Tendo regressado à Madeira, na sua atividade pastoral sobressaiu como vice-reitor do Seminário do Funchal e professor de Teologia..
A 26 de novembro de 1973, com 41 anos de idade, D. Maurílio de Gouveia recebeu a sua nomeação episcopal, como bispo titular de Sabiona e bispo auxiliar de Lisboa, através do Papa Paulo VI, tendo sido ordenado bispo pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, a 13 de janeiro de 1974.

A 21 de maio de 1978, foi nomeado arcebispo titular de Mitilene, e a 17 de outubro de 1981, aos 49 anos de idade, arcebispo de Évora, por intermédio do Papa João Paulo II, sucedendo a D. Frei David de Sousa.
Durante 26 anos esteve à frente da Arquidiocese do Sul (Évora), tendo-se destacado no compromisso pastoral, marcado pela proximidade com as comunidades católicas locais, visitas a escolas e fábricas.
Atingidos os 75 anos de idade (em 2007), idade limite para a missão episcopal, segundo a lei canónica, D. Maurílio de Gouveia apresentou ao Papa Bento XVI a sua resignação ao cargo de arcebispo de Évora. Este pedido foi aceite em simultâneo com a nomeação de seu sucessor, D. José Alves, que veio a tomar posse em 17 de fevereiro de 2008.
Na hora da despedida do cargo, D. Maurílio Gouveia deixou este testemunho: “Sinto-me muito feliz por tudo aquilo que pude viver aqui nestes 26 anos. Foi uma experiência muito gratificante. Estou muito grato a Deus por tudo aquilo que pude viver nestes anos, sobretudo pela amizade que se estabeleceu com todas as populações, famílias e pessoas individualmente”.
“Rumo ao Céu”, é a sua última publicação, entre outras, cuja experiência pessoal já se encontra a fazer, sabendo agora que valeu a pena a fé que o moveu a trabalhar em favor do Reino de Deus.

domingo, 23 de dezembro de 2018

LIBERDADE RELIGIOSA

Liberdade Religiosa em Portugal


O recente estudo da Universidade Católica Portuguesa, relacionado com a prática religiosa, concluiu que Portugal é um exemplo de liberdade e de tolerância no cenário atual da Europa e do mundo.
O inquérito, num universo de 1180, realizado em Lisboa, a residentes com idade igual ou superior a 15 anos de idade, revela que 91% dos inquiridos nunca sofreram qualquer tipo de discriminação em virtude das suas posições quanto à religião e, aqueles que falaram de discriminação encontraram-na entre os seus amigos e familiares.
Para os crentes, um dos sinais preocupantes é o facto de, entre os inquiridos, apenas 64% estarem ligados a uma religião e, destes, 54,9 %, à Religião Católica. Deste facto resulta que, por diferentes razões, quase 35% declararam não ter religião. Em outras religiões: religião evangélica (5 %), budista (0,7 %) e muçulmana (0,8 %).
Quanto à prática, o estudo indica uma redução da ligação dos católicos à fé, comparativamente às outras confissões e, no que respeita à própria oração, enquanto 81%  dos evangélicos mencionam rezar todos os dias, entre os católicos, apenas 35,8% afirmaram que o fazem diariamente.
A diminuição entre os católicos e a progressão dos "sem religião" levanta à Igreja sérias questões, não apenas na área de Lisboa mas também em todo o país dado que, apesar do estudo espelhar a situação na capital, trata-se da zona com maior população e, embora de modo diferente, podemos estar perante tendências semelhantes no resto do país.


À procura das raízes ou causas


Face aos dados fornecidos pela sociologia, parece evidente que não podemos ficar indiferentes, com a tentação de ignorar ou então, proceder como a “avestruz com a cabeça na areia", fazendo de conta que nada se passa. Na certeza de que “a verdade libertará”, nada melhor do que nos reconciliarmos a realidade que nos envolve para a procurarmos transformar lançando nela a boa semente do Evangelho. A realidade interroga-nos e, na procura das razões existem principalmente duas perspectivas, a saber:
A primeira, procurar as razões fora de nós ou seja, na sociedade materialista, no hedonismo, no individualismo, no secularismo e laicismo, nas distracções e diversificadas propostas da sociedade, etc. Deste modo, repete-se a história de Adão e Eva, onde ninguém quer ser o culpado. Qual tragédia grega, a raiz dos problemas está fora de nós e nós nada podemos fazer, para além de aguentarmos e rezarmos pedindo a intervenção paciente e misericordiosa de Deus.
Um outro modo, e talvez o mais correcto, é procurar as causas dentro de nós, no que fazemos ou deixamos de fazer, no modo como realizamos a iniciação cristã, na dinamização das comunidades cristãs e no acompanhamento que fazemos depois da celebração dos Sacramentos. Frequentemente, a força de uns é fruto do dinamismo dos próprios e também da inércia dos outros.
Sendo verdade que são muitas as dificuldades na transmissão da fé, não podemos deixar de admitir que, muitas vezes, não transmitimos a fé porque pouco ou nada temos para transmitir, parecendo faltar-nos a luz, o sal e o fermento do evangelho. Sem estes segredos de vida, frutos da obra do Espírito em nós, não conseguimos apresentar a força do testemunho de vida cristã enquanto alternativa às modas ou critérios da sociedade secularizada. 

dezembro/2018
António Novais

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Missas em Latim?!









Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II, torna-se muito difícil compreender a pretensão de querer voltar atrás, reintroduzindo aquilo que a Igreja, em Concílio, desaconselhou ou seja, celebrar a Missa em Latim.
O Papa Paulo VI deu o exemplo, celebrando a primeira Missa em italiano e, cinquenta anos depois, no mesmo local (Paróquia romana de Todos os Santos), o Papa Francisco reforçou a importância desta decisão histórica, aliás experimentada com grandes frutos na Igreja pós-conciliar.

Em 12 e 13 de Maio último (ano de 2017) a multidão que recebeu o Papa Francisco, em Fátima, com ele pode participar melhor na celebração do Mistério eucarístico porque, recorrendo unicamente ao Português, o Pastor universal deixou bem clara a importância da grande mudança realizada na liturgia da Igreja.  Seguir o exemplo do Senhor Jesus, que falava a língua dos seus conterrâneos, voltar às origens ou ao exemplo das primeiras comunidades cristãs, respeitar e pôr em prática aquilo que a Igreja, na fidelidade ao Espírito decide e recomenda, é a melhor forma de não nos enganarmos, defendermos o "bem dos fiéis" e promovermos a participação ativa do Povo de Deus.

Apesar das diferentes sensibilidades ou gostos pessoais, na pastoral da Igreja não é aconselhável a introdução de ritos ou práticas que o povo não pode entender. Porque de linguagem se trata, convém não esquecer a recomendação do Apóstolo S. Paulo no sentido de que, quando alguém fala na assembleia e não se entende, esse irmão deve calar-se. (cf. 1 Cor. 14,27-28)

A Liturgia ou "ação do povo", conforme significado da própria palavra, requer a ultrapassagem tradicional do "ouvir missa", com o promover do entendimento do que se faz e a participação ativa de toda a assembleia.Como se pode alimentar a fé que vem pelo ouvido se a celebração da mesma se torna uma "coisa distante"?! E como poderá tornar-se próxima se o latim não é a nossa linguagem (aliás, "língua morta") e até mesmo os novos Padres já não o aprendem?! Se não o aprendem, como poderão pronunciá-lo corretamente?!


Pela atualidade deste assunto, aqui transcrevo a Carta do Cardeal-Patriarca de Lisboa, aos Presbíteros do Patriarcado de Lisboa, em setembro de 2007.




 

Caros Padres,


             1. Dirijo-me a vós num momento da vida da Igreja, em que se exige particular discernimento pastoral: a publicação por Sua Santidade o Papa Bento XVI da Carta Apostólica, dada sob a forma de "Motu Proprio", "Summorum Pontificum Cura". O "Motu Proprio" regula o uso, na Liturgia, do "Missale Romanum", na sua última edição de 1962, promulgada pelo Papa João XXIII, como forma extraordinária de celebração da Liturgia católica segundo o Rito Romano.

Ao apresentar este "Motu Proprio", o Santo Padre escreveu uma Carta aos Bispos de todo o mundo, cujo texto é indispensável para a interpretação e aplicação pastoral do referido "Motu Proprio".

 
Ambos os textos serão publicados no "Vida Católica".


O Santo Padre reconhece que a notícia da publicação destas Normas provocou duas reacções: uma entusiasta aceitação e uma férrea oposição. Espero que, entre nós, nenhuma destas atitudes extremas prevaleça. Considero que as pessoas que desejam celebrar a Liturgia do Missal de 1962 são, entre nós, uma minoria, embora permeáveis ao que se passa noutras Igrejas. É mais plausível a reacção daqueles que sentem desgosto, pensando que se pôs em questão o Concílio Vaticano II e o seu "ex libris" que é a Reforma Litúrgica. De facto, muitos de nós vivemos com grande entusiasmo a Reforma Litúrgica e o espírito de "aggiornamento" proposto pelo Concílio, e isso modelou a nossa forma de ser cristão e imprimiu o rosto às comunidades cristãs, que aprenderam a viver a Liturgia, não apenas como manifestação da fé pessoal, mas como expressão viva de um Povo que se reconhece como comunidade quando celebra a Sagrada Liturgia.
Em espírito de comunhão com o Santo Padre, escutando-o e obedecendo-lhe, queremos pôr pastoralmente em prática, com o discernimento que a sua aplicação a uma situação concreta exige, a sua orientação para toda a Igreja, percebendo as motivações que o moveram e os objectivos que pretende alcançar.


Apesar de o "Motu Proprio" dar uma grande autonomia de decisão aos Párocos e, em certos casos, a todos os Sacerdotes, o Bispo não deixa de ser, como o Santo Padre reconhece, citando a "Sacrossanctum Concilium", nº 22, o moderador da Liturgia na própria Diocese: "O governo da Liturgia depende unicamente da autoridade da Igreja: pertence à Sé Apostólica e, nas regras do direito, ao Bispo" (S.C., nº22). Na construção da unidade da Igreja diocesana, a aplicação deste "Motu Proprio", no respeito pela autoridade do Santo Padre, expressamente manifestada, será definida pelo Bispo diocesano, com a colaboração do Departamento de Liturgia da Diocese.


 


            Os motivos e objectivos do Santo Padre


            2. Antes de mais, o bem dos fiéis, daqueles que desejam a celebração segundo o Missal de 1962, porque procuram aí a dimensão sagrada do mistério da Eucaristia, que também podem encontrar na celebração segundo o Missal de Paulo VI, que devem em qualquer hipótese aceitar, porque continua a ser, para toda a Igreja, a forma normal de celebrar a Liturgia. O Santo Padre afirma mesmo que, vencidos os exageros de uma criatividade litúrgica mal concebida, é ocasião de imprimir nesta forma normal de celebrar a Missa toda a sua dimensão sagrada. Diz Bento XVI na Carta aos Bispos: "Na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo…" celebrando "com grande reverência, em conformidade com as rubricas; isto torna visível a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste Missal".
 
ü  O "bem dos fiéis" é, pois, o único motivo que pode levar os Párocos a usar o Missal de 1962, pelo que um Pároco não pode impor à Paróquia o Missal de 1962 apenas motivado pela sua perspectiva pessoal.

 
ü  O "bem dos fiéis" supõe discernimento: quantos são os fiéis, quais os motivos que os levam a pedir essa Liturgia; que formação cristã e litúrgica possuem. De facto o Santo Padre afirma: "O uso do Missal antigo pressupõe um certo grau de formação litúrgica e o conhecimento da língua latina; e quer uma quer outro não é muito frequente encontrá-los".
Que ninguém se precipite nem facilite, na certeza de que encontraremos de modo justo, uma resposta para os fiéis que o pedirem, obedecendo aos critérios enunciados pelo Santo Padre, que não contemplam motivos como o simples gosto pelo antigo, o ser diferente, ou a forma de reagir a imperfeições na forma actual de celebrar a Liturgia.
 
3. Um outro objectivo do Santo Padre é salvaguardar a unidade da Igreja. "Trata-se de chegar a uma reconciliação interna no seio da Igreja" (Bento XVI, Carta aos Episcopados)

Na história da Igreja, mais do que uma vez, as grandes reformas originaram divisões com grupos de cristãos que não as aceitaram. Foi o caso dos "velhos católicos", a seguir ao Concílio Vaticano I, e o do cisma de Mons. Lefebvre, a seguir ao Concílio Vaticano II. Bento XVI confessa que a primeira abertura ao uso do Missal de 1962, feita por João Paulo II no "Motu Proprio" Ecclesia Dei, foi motivada pela crise lefebriana e dirigia-se à Fraternidade S. Pio X. O seu "Motu Proprio" dirige-se não apenas aos seguidores de Mons. Lefebvre, mas a outros cristãos, mesmo jovens que, pensa o Santo Padre, se sentem atraídos por essa Liturgia. O horizonte de análise do Santo Padre é a Igreja toda. 
Mas esta preocupação por salvaguardar a unidade da Igreja tem, nos dois documentos do Papa, outras concretizações a que devemos dar grande relevo pastoral: antes de mais, o Missal de Paulo VI é a forma normal, para toda a Igreja, de celebrar a Liturgia. Diz o Santo Padre que, "obviamente, para viver em plena comunhão, também os sacerdotes das Comunidades aderentes ao uso antigo não podem, em linha de princípio, excluir a celebração segundo os novos livros. De facto, não seria coerente com o reconhecimento do valor e da santidade do novo rito a exclusão total do mesmo"; por outro lado, quando o Pároco acha que deve acolher o desejo de um grupo de fiéis da sua Paróquia de celebrar pelo Missal de 1962, "tenha em conta que o bem destes fiéis seja harmonicamente coordenado com o bem pastoral de toda a Paróquia, sob orientação do Bispo nos termos do c. 392, evitando divisões e promovendo a unidade de toda a Igreja" (art.º 5 §1 do Motu Proprio). Isto quer dizer que tem de se avaliar o significado dessa abertura na harmonia de toda a comunidade.



 
Papel dos Sacerdotes na aplicação destas Normas


4. Porque é o sacerdote quem preside à Eucaristia e aos Sacramentos, o bom discernimento pastoral dos sacerdotes é muito importante para uma aplicação positiva e equilibrada destas Normas.


Como já ficou dito, o sacerdote não deve pôr o acento no seu possível gosto pessoal pela Liturgia anterior à Reforma Litúrgica, mas no bem dos fiéis e de toda a comunidade a que preside. O seu gosto pessoal só poderá ter lugar na missa privada, "sine populo" (art.º 2º). Estas celebrações não podem ser aquelas que são anunciadas ao Povo de Deus, como programa normal da Paróquia. Essas "missas privadas" não devem ser anunciadas. A possibilidade de outros fiéis assistirem a elas, como está previsto no art.º 4º do "Motu Proprio", não pode entender-se como divulgação pública das mesmas.
Quanto às celebrações públicas para os fiéis que as pedirem, dada a não premência do fenómeno entre nós, que ninguém se precipite a conceder essas celebrações, sem um discernimento prévio, de preferência feito em presbitério e em diálogo com o Bispo.
Estejam os Párocos particularmente atentos para se certificarem que os sacerdotes que se apresentam para celebrar segundo o rito antigo, mesmo na missa "sine populo", são idóneos e não impedidos pelo Direito (cf. Art.º 5º §4).

 
5. Os Párocos devem cuidar, particularmente, da qualidade e profundidade litúrgica dessas celebrações. O rito antigo, já muito distante da prática da Igreja, se não é celebrado com dignidade litúrgica, pode transformar-se em elemento desagregador do crescimento das comunidades. Neste aspecto tenham-se em conta, sobretudo os seguintes pontos:

 
5.1. O uso da língua latina. É claro na Carta do Santo Padre aos Bispos que o seu uso supõe o conhecimento da língua latina. Infelizmente muitos sacerdotes da nossa Diocese já não sabem o latim. Esses sacerdotes devem considerar-se não idóneos para presidir à Missa segundo o Missal de 1962. Se as circunstâncias pastorais o aconselharem, devem procurar-se sacerdotes que o possam fazer dignamente.

 
5.2. A música. Os textos do Missal de 1962 estão musicados em gregoriano. A possibilidade de os cantar, com o mínimo de qualidade, deve ser condição para permitir missas comunitárias nesse rito.


 
5.3. O vernáculo. As leituras em português supõem traduções aprovadas pela Santa Sé (cf. Art.º 6º).

 
5.4. Os espaços sagrados. Os nossos templos estão orientados para a celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI. Fica proibida qualquer tentativa de alterações dos espaços, sobretudo do altar e do presbitério, por causa da possibilidade de celebrar o ritual de 1962, que aliás já previa a celebração "versus populum".

 
Princípios basilares a ter em conta
 

6. Os textos litúrgicos emanados da Reforma Litúrgica constituem a Liturgia normal da Igreja para todos. O uso de textos de antes da Reforma Litúrgica, é excepcional, motivado pelo "bem dos fiéis", a discernir e analisar ponderadamente.

7. As celebrações, segundo esse rito, devem ser durante a semana. Nos Domingos e dias festivos, celebra-se a Liturgia normal. O Santo Padre abre a hipótese, no caso dum grupo significativo de fiéis o aconselhar, de uma das celebrações paroquiais nos Domingos e dias festivos seguir o Missal de 1962. Na nossa Diocese, peço aos Párocos que, por enquanto, não permitam essas celebrações dominicais, antes de uma análise profunda da situação. Se chegarmos à conclusão que o "bem dos fiéis" o exige, encontraremos, em conjunto, formas de lhes garantir, ao Domingo e dias festivos, celebrações de grande qualidade segundo a Liturgia antiga.

 
8. Estejamos vigilantes para que esta abertura concedida pelo Santo Padre, tendo em conta o bem de toda a Igreja, não se transforme numa campanha em favor da Liturgia antiga. Isso seria contra a Reforma Litúrgica e todo o espírito do Concílio Vaticano II, e ignoraria o carácter extraordinário, claramente afirmado pelo Santo Padre, do uso do Missal de 1962.
 
9. Procuremos todos celebrar a Liturgia com qualidade, unção e sentido do Sagrado. Estas qualidades que aparecem a justificar os que procuram a Liturgia antiga, são aliás valores da Reforma Litúrgica, pois toda ela é expressão, em assembleia orante, da fé da Igreja.

Conclusão



10. Assino esta carta com data de 14 de Setembro, no dia em que entra em vigor a Carta Apostólica do Santo Padre "Summorum Pontificum Cura". Ela é a expressão da nossa comunhão obediente com o Santo Padre, mas também o assumir das nossas responsabilidades pastorais, como Pastor desta Igreja de Lisboa.
 
 Lisboa, 14 de Setembro de 2007, Festa da Exaltação da Santa Cruz
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

terça-feira, 11 de abril de 2017

TRÍDUO PASCAL


 
«Exorto-vos a viver intensamente estes dias, para que eles orientem decididamente a vida de cada um para a adesão generosa e convicta a Cristo, morto e ressuscitado por nós» (Bento XVI).

 

No final da quaresma, vivemos a Semana Santa, ocasião para vivenciar os últimos acontecimentos que antecedem a Paixão e morte do Senhor Jesus, envolvidos da experiência dolorosa e dramática, até ao ponto de, humanamente, se poder perguntar se foi abandonado pelo próprio Deus. Um dos que estava com Ele à mesa, na maior intimidade, o havia de entregar (Judas Iscariotes) e Pedro, pouco tempo depois, "antes do galo cantar", o negaria três vezes.
A celebração do Tríduo Pascal é o centro do ciclo da Páscoa e também de toda a Liturgia e da vida da Igreja. 

 

O tríduo tem início com a Quinta-feira santa onde celebramos a Instituição da Eucaristia, o dom do Sacerdócio e recebemos o Mandamento Novo: "Amai-Vos uns aos outros como Eu vos amei". Na fração do pão, o próprio Jesus faz-se alimento para o homem pecador que não desiste de se querer levantar para continuar a caminhar na presença de Deus, rumo à eternidade.

 

A sexta-feira da Paixão, momento derradeiro que testemunhamos a morte de Jesus na cruz, convida-nos a acompanhar os passos do sofrimento de Cristo pela nossa Salvação. “Nós temos a possibilidade de tomar, neste dia, a decisão mais importante da vida, aquela que nos abre de par em par as portas da eternidade: acreditar! Acreditar que ‘Jesus morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação’ (Rom 4, 25).

 

No Sábado Santo, a Igreja inteira permanece à espera junto do túmulo do Messias, sacrificado na Cruz. Espera e reza, ouvindo novamente as Escrituras que falam da história da salvação. Depois do pôr do sol, somos convidados a entrar em Vigília de Oração, fortemente marcada pela escuta demorada da Palavra de Deus, terminando com a celebração Eucarística, na qual renovamos as nossas promessas batismais e professamos solenemente a fé da Igreja.

 

A experiência da Páscoa, ponto central da nossa fé, mostra a realidade do plano de Salvação: Deus enviou o Seu Filho amado ao mundo não para condenar o mundo mas para que o mundo seja salvo. Pelo mistério pascal, Jesus mostra-nos o caminho trilhado pelo amor no sofrimento que frutifica abundantemente e provoca a própria Ressurreição.


Vivamos intensamente o Tríduo Pascal para que o Domingo de Páscoa seja verdadeiramente o Dia de Cristo Ressuscitado, desejando que esse dia nunca chegue ao seu termo.


"EIS O DIA QUE FEZ O SENHOR. NELE EXULTEMOS E NOS ALEGREMOS"!!!


 

 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

MENSAGEM DA PÁSCOA 2017 - D. JOÃO MARCOS, Bispo de Beja

 
Sem Páscoa não há futuro
 
 
Meus queridos diocesanos e amigos:
1 - Anunciar a Páscoa neste nosso contexto, convidar pessoas para celebrarem a Morte e a Ressurreição de Jesus de modo a poderem saciar-se nas fontes da vida e da salvação é quase como tentar vender roupas de verão no pino do inverno ou apregoar chapéus-de-chuva no deserto, onde não chove. Atualmente, a maior parte das pessoas sente-se bem no Egito, como se estivesse na sua pátria. Não quer ouvir falar de ressurreição, e de morte, ainda menos. Sair do Egito? Isso era antigamente. Porque deixou de ser visto como casa da escravidão, o Egito está agora muito mais sedutor que a melhor idealização da Terra Prometida, e o caminho faz-se agora em sentido inverso. Basta ver as multidões que deixam para trás Jerusalém e o Sinai e trocam Jesus e Moisés pelas idolatrias de sempre e pelas superstições de novo reabilitadas.
Os tempos são outros. O faraó é o mesmo de sempre e não mudaram os seus desígnios sinistros, mas agora usa métodos mais sofisticados e eficazes: trocou o rigor do chicote pelo conforto, a fome e o racionamento pela abundância de bens materiais e disfarça a mesma dura servidão e manipulação dos escravos oferecendo-lhes, de bandeja, as mais amplas liberdades individuais. Em nome dos superlativos direitos do indivíduo, o faraó já não mata só os meninos mas nega o direito à vida também às meninas. E, para garantir o bem-estar do momento presente que engorda esta geração para a matança, incentiva-lhe o egoísmo, a gula, a luxúria e a esterilidade, e assim destrói a família e inviabiliza o futuro. Nunca dantes se viu no mundo algo comparável a este Egito deslumbrante, a esta terra da abundância e de todas as liberdades, a este magnífico Eldorado. Assim, quem se disporia a sair do Egito para se ver livre de um faraó tão bom? Não vale mais um pássaro na mão que dois a voar? Alguém trocaria o seu conforto e as suas seguranças por uma deriva cheia de perigos num deserto onde não há nada, em busca de uma hipotética terra prometida? Apenas aqueles que, como Moisés, têm sabedoria para discernir o presente e vislumbrar o futuro, como se vissem o invisível (Cf. Heb.11,27). De facto, estas liberalidades faraónicas são um engodo e sumamente precárias, mas as pessoas, anestesiadas, não dão por isso. Não reparam nos muitos sinais de desagregação do tecido social, nem avaliam os custos criminosos e as consequências desastrosas desta embriaguez coletiva. Para que haja futuro precisamos da Páscoa.
2 - Nesta sociedade, parece que Deus sobra. Pior: os falsos profetas demonstram facilmente aos incautos, com duas mentiras, que Deus é nosso inimigo e nos rouba o espaço de que precisamos para sermos nós próprios. Deus quer? Não! O homem quer, o homem sonha, a obra nasce e, pelo homem, cresce e é concluída. Do homem que a sonha ao que dela frui, do homem para o homem, em circuito fechado, em curto-circuito. E o homem agradece a si mesmo e ao seu trabalho, e a si próprio se felicita. Quem conseguirá fazer-lhe ver que precisa de um Redentor, se a superficialidade e a soberba o cegam e impedem de se conhecer a si mesmo? Voltado completamente para fora, para dominar e transformar o mundo, o homem ocidental vendeu a alma ao diabo por um prato de lentilhas. Perdeu a interioridade, ficou
completamente analfabeto no que respeita à vida espiritual e vê-se enredado nas superstições mais grosseiras e nas mais pesadas idolatrias.
Quem abrirá os olhos a esta geração para que se dê conta da destruição provocada pelo materialismo e pela estupidificação crescente de tanta gente que, tendo abandonado a fé cristã parece contentar-se com uma vida sem dignidade e sem esperança? Quem escutará a voz persistente do seu coração inquieto, criado para Deus e sempre insatisfeito enquanto não descansa n’Ele? Quem abrirá o caminho do Êxodo a esta geração surda, cega e paralítica que apodrece miseravelmente neste sofisticado Egito disfarçado de terra prometida?
3 - Aquele que é a luz do mundo, o Senhor da vida e da morte, vem ao nosso encontro, vem ao teu encontro nesta Páscoa, querido irmão ou irmã, e convida-te para a verdadeira liberdade e para o banquete da sabedoria, para o banquete da Nova Aliança: todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas (Is. 55,1); Vinde comer do meu pão, bebei do vinho que preparei para vós (cf. Prov. 9,5).
Como vosso pastor que sou, traduzo e concretizo para vós este convite: Vinde celebrar a Páscoa! Vinde aclamar Cristo nosso Rei e Senhor na procissão do domingo de Ramos! Vinde, na quinta-feira santa, inaugurar o Tríduo Pascal e viver intensamente a entrega de Jesus por nós e aprender a praticar a verdadeira caridade fraterna em profunda humildade, servindo os irmãos com os mesmos sentimentos de Jesus. Vinde, na sexta-feira santa, contemplar a Paixão do Senhor na qual resplandece o amor imenso de Deus para connosco e também as consequências do pecado do mundo, dos nossos pecados. Vinde adorar o Senhor crucificado e aprender a sabedoria da Cruz. Na noite de Páscoa, na solene Vigília Pascal, a mais importante de todas as celebrações, vinde passar com Cristo da morte para a Vida; vinde refontalizar a vossa vida cristã renovando as promessas do Batismo e celebrando o memorial da Páscoa do Senhor, a Eucaristia, na qual recebemos, como penhor da Vida Eterna, o corpo do Senhor Jesus Ressuscitado!
4 – Não digas que não tens tempo. Dá importância ao que é importante. Sê inteligente, não inventes desculpas, sê bom para ti mesmo! Vem celebrar a Páscoa connosco e poderás dizer com os discípulos de Emaús: o Senhor ressuscitou verdadeiramente (Luc. 24,34)! E poderás testemunhar, com Maria Madalena: vi o Senhor (Jo.20,18)!
Queridos irmãos e amigos: sem Páscoa não há vida, não há futuro! Manifestemos a alegria incomparável de sermos filhos de Deus regenerados por Cristo no seio da Igreja, de sermos membros do Corpo de Cristo, reis e sacerdotes! Rezemos uns pelos outros para que, nestas celebrações, recebamos abundantemente o Espírito Santo para anunciarmos corajosamente a vitória de Cristo sobre a morte. Ele vos conceda, nestas festas, a sua paz e a sua alegria!
 
 
 
 
 
+ J. Marcos

terça-feira, 27 de setembro de 2016

34º DIA DIOCESANO
24 de Outubro de 2016


Iniciamos o ano pastoral 2016-2017 com o lema para a acção da Igreja na Diocese de Beja “Com Maria, seremos Igreja viva”. Se para alguns, poderá parecer uma opção superficial e até mesmo, alienante da opção por Jesus Cristo, para todos nós que aqui nos reunimos, ela deverá ser uma opção fundamental que iluminará o programa pastoral dos diferentes organismos diocesanos e inspirará o caminho de fé de todo o povo de Deus, nestas terras do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral. Olhar para Maria e com ela caminhar para Cristo é uma dimensão tão antiga, que remonta às origens do cristianismo, mas sempre actual, oportuna e necessária. Situa-se nas preocupações e acontecimentos da Igreja dos nossos dias.
Antes de mais, embora o ano jubilar da misericórdia, na Diocese, encerre a  13 de Novembro próximo, e em Roma, uma semana depois (20 de Novembro), a virtude da misericórdia continuará a iluminar o nosso viver cristão, como “meta a alcançar com empenho e sacrifício”, estimulada pela peregrinação (MV 14). Na verdade, alcançamos e somos misericordiosos na medida em que nos desinstalamos e caminhamos para estabelecer o encontro com todos os que de nós necessitam. Esta dimensão dos cristãos como “homens do caminho” encontra as suas razões em Abraão e no povo de Israel; foi, exemplarmente, vivida pelo Senhor Jesus e pelos seus discípulos, (e também por algumas mulheres que acompanhavam Jesus e os serviam), adoptada pelos primeiros cristãos e realçada ao longo da história da Igreja, incluindo o próprio Concílio Vaticano II, cujo cinquentenário celebramos recentemente. 
Esta é a nossa condição de cristãos. Dizer não à instalação, sempre insatisfeitos e desejosos de uma maior conversão, sempre inacabada, até ao encontro final com Deus Pai, quando por ele ficarmos totalmente saciados.
Atentos aos apelos do Papa Emérito Bento XVI e Francisco, não nos esquecemos da nossa condição de “discípulos missionários” que seguem Jesus Cristo e, pelas palavras e pela vida d ‘Ele dão testemunho. 
É desejável que estas imagens do cristianismo, “homens do caminho” e “discípulos missionários”, passem a fazer parte da mentalidade corrente dos cristãos e da vida pastoral, porque nos sentimos insatisfeitos somente com a manutenção de tradições religiosas – missas, sacramentos, procissões, funerais e muitas bênçãos – como modo de provocarmos a renovação missionária.
Neste ano pastoral, a celebração do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima há-de inspirar-nos no renovar da vida cristã e da conversão pastoral Diocesana: Maria, Nossa Senhora Missionária e Mãe de Misericórdia, a todos congrega e introduz no mistério da Igreja, chamada a ser o rosto da misericórdia de Deus. Com ela, poderemos continuar a levar o evangelho às periferias, necessitadas de ternura e de paz nas suas consciências.
Tanto quanta a probabilidade do nosso cansaço (e algum fastio) no ouvirmos falar de nova evangelização, é possível que ainda não tenhamos compreendido suficientemente o que ela é enquanto anúncio do evangelho e da novidade ousada que se aguarda da parte dos evangelizadores. A nova evangelização justifica-se não apenas porque o mundo necessita mas também por causa do cumprimento do nosso dever enquanto Igreja de Jesus Cristo.
Seremos uma Igreja viva? Sim, se aprofundarmos a dimensão do crescimento da nossa fé, do seu verdadeiro alimento e… tudo com Maria!


Presidente do Secretariado Diocesano da Coordenação e Animação Pastoral